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Wings To Fly

Wings To Fly

05.07.20

O Caminho não termina em cada chegada... Começa!

LP

05h00 o despertador vibra para não acordar aqueles que estão à nossa volta. Saímos do saco cama com o máximo silêncio e com a ajuda da lanterna do telemóvel pegamos nas nossas coisas. No dia anterior já tínhamos preparado tudo para não perdermos muito tempo. É mais um dia. Rumo ao nosso destino. Vamos para os balneários e acabamos de nos preparar. Começam os sorrisos ainda meio sonolentos e os bons-dias nas mais diversas línguas - admito que neste aspeto sou muito patriota e das duas uma: sorrio ou digo bom dia em bom português. Vemos se os nossos pezinhos já calejados estão em condições e, depois, apertamos os cordões das sapatilhas. Dirigimo-nos à sala comum e vamos tomar o pequeno almoço para nos dar aquela energia matinal. Uma troca de palavras aqui e ali, mochila às costas e seguimos. No máximo são 06h da manhã, ainda é de noite. Se forem todos como eu, o que safa é a lanterna do telemóvel e a luz pública (gosto de viver no limite, é verdade). Mais ainda, se estiver frio, é o saco cama - que tanto custou a dobrar - que serve de casaco, isto porque: quanto menos peso na mochila melhor. Vemos o nascer do sol e é sempre magnífico!

Ao longo do Caminho cruzamo-nos com imensas pessoas dos mais variados pontos do globo e, meus amigos, não se preocupem se forem uma nódoa a inglês, como eu, sinceramente desconfio que existe outra língua universal: a do Caminho. Entendemo-nos perfeitamente. As dores, as angústias, os receios e as alegrias. O primeiro cumprimento é sempre o mesmo “Buen Camiño!” Fazemos muitos quilómetros por dia. Às vezes mais do que estava programado outras menos. Mas o objetivo é sempre o mesmo: chegar a um albergue (que temos no nosso itinerário mal-amanhado) e bem! O Caminho não se resume a uma caminhada do ponto A ao B. É muito mais do que isso. Durante o dia temos a oportunidade de conversar, estar em silêncio, rezar (quem for crente, claramente), observar as paisagens deslumbrantes e, para mim o mais importante, pensar e conhecer. Pensar na nossa vida. No que fizemos, fazemos e queremos fazer. Nos nossos objetivos. Acabamos por nos conhecer um bocadinho melhor e acabamos por tomar algumas decisões. Conhecer pessoas incríveis. Que fazem o Caminho por mil e um motivos ou então por nenhum – na verdade, acho que são como eu, fazem-no por um motivo, mas não conseguem explicá-lo – e é quando falo das pessoas que conhecemos que relato sempre com um sorriso nos lábios e os olhos a brilhar um episódio caricato que aconteceu comigo no terceiro ou quarto dia no segundo Caminho que fiz. Estávamos a meio da manhã e eu com umas dores musculares terríveis. Decidi pousar a mochila e sentar-me perto de uma fonte. A minha companheira de Caminho procurava no meio da nossa pequena “farmácia” algo que pudesse diminuir as dores, mas não havia nada. Estava quase a levantar-me para seguir viagem quando para uma senhora à nossa beira e me pergunta o que se passa. Expliquei-lhe os sintomas e ela não abriu a boca. Assustei-me, mas confiei. Sacou de um frasquinho de dentro da mochila e disse-me para colocar calmamente no sítio em que me doía. Assim fiz. Depois disse-me “quando passares numa farmácia compra Álcool de Romero!”. Passados dois minutos disto acontecer, parecia que voava! As dores desapareceram e, meus caros, acreditem em mim, a partir desse momento o Álcool de Romero foi o nosso melhor amigo e partilhámos a receita com mais pessoas que encontrámos e estavam na mesma situação que eu – até como perfume serviu! Partilho este momento para vos dizer que no Caminho todos nos ajudamos. Seja em que situação for. E isso é tão bonito!

A chegada aos albergues é sempre um momento gratificante. Primeiro, porque mais uma etapa está concluída. Depois, porque a probabilidade de reencontrarmos amigos que fizemos ao longo do dia é bastante elevada. Tiramos as sapatilhas que já nos estão a massacrar os pés e, se tivermos sorte, escolhemos a melhor cama e vamos diretos ao banho. E que bem que sabe. É hora de descansar um bocadinho antes de irmos conhecer a localidade onde estamos e irmos fazer algumas compras. Depois de todos os afazeres, reencontramos as pessoas com quem nos fomos cruzando. Partilhamos momentos, jantares, sorrimos muito e, às vezes, choramos. Principalmente quando há cantorias pelo meio. E, neste momento, só me passa pela cabeça a música “Oração de São Pedro” e relembro os Amigos da Igreja. Mandamos uma mensagem aos pais a dizer que está tudo bem, damos uma vista de olhos pelas redes sociais e chegou a hora de ir descansar. Aproveitamos para tentar adormecer antes que cheguem aqueles que mais ressonam. No entanto, antes de adormecermos, pensamos em tudo o que se passou ao longo do dia. Os bons e os maus momentos. Os momentos em que pensamos desistir. Os momentos em que achamos que não vamos conseguir chegar ao destino. Mas, neste momento, fecho os olhos. E penso nas pessoas que me acompanham. Nas pessoas que já conheci e que são verdadeiros exemplos. Naquilo que já vivi e que ainda tenho para viver. Não é uma promessa. Mas sei que vai ser gratificante chegar onde ambiciono. E é assim em tudo o que faço…

De repente, estamos no último dia. Sim, aquele dia em que vemos a Catedral que parece tão perto e, ao mesmo tempo, ainda está tão longe. Não há sequer tempo para pensar em desistir. Que palavra é essa? Existe? Não! Estamos muito perto.

Mais uns quilómetros e chegamos! Começamos a reconhecer alguns sorrisos suados e caras recheadas de lágrimas. Acontece-me o mesmo! O vento bate-me na cara e as lágrimas correm pela cara. Nelas está o sacrifício de uma semana, as memórias, os amigos que fiz, os amigos que me acompanharam, a família e os amigos que deram força para terminar o Caminho e estão em Portugal à espera de que eu chegue para contar mil e uma vez as mesmas histórias! Chegou o momento de ir dar o tão esperado abraçado a Santiago! Os pedidos ganham forma. Mas os agradecimentos são superiores. Vamos à Missa do Peregrino e as lágrimas surgem a cada cinco minutos. As despedidas aparecem num estalar de dedos – e é aqui que eu penso: ainda bem que existe redes sociais – e, mais uma vez, lágrimas! De alegria. Por ter vivido uma semana tão intensa, tão gratificante.

Julgo que me perdi nesse texto. Vagueei muito. Escrevi recordações que me fazem sorrir. E fi-lo porque tenho saudades da liberdade do Caminho. Este ano, tinha pensado pegar na mochila e ir, mas devido à situação que vivemos resolvi adiar. O Caminho não termina em cada chegada a Santiago. Começa! E ainda há tanto por caminhar…

IMG-20180905-WA0005.jpgOração de São Pedro

Abracinhos 🌷

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